Iniciaremos a nossa fundamentação bíblica acerca da Trindade, fazendo-a com base no Antigo Testamento. Exploraremos algumas passagens que tratam do assunto. A doutrina da Trindade está descrita no Antigo Testamento, claro que não de forma tão evidente quanto no Novo Testamento, haja vista a revelação bíblica ser progressiva. “Deus, no Antigo Testamento, é um só, que se revela pelos seus nomes, pelos seus atributos e pelos seus atos. Mesmo assim, o Antigo Testamento lança alguma luz sobre a pluralidade (uma distinção de Pessoas) na Deidade” (HORTON, 1996, p.159). 

Strong, em sua Teologia Sistemática, afirma que as passagens do Velho Testamento que apontam para uma pluralidade pessoal em Deus podem ser classificadas em quatro tópicos, que passaremos a comentar.

A pluralidade em Deus

Vemos na língua hebraica, por vezes, o substantivo plural (Elohim) sendo empregado, quando, na verdade, existe o mesmo substantivo no singular (El). Comentando o emprego de Elohim no texto de Gênesis 1.1, Champlin nos diz que “Elohim é o plural de Eloah, podendo ser traduzido por deuses.

No plural, essa forma pode apontar para os anjos.” (Champlin, 1933, p. 9). Mas não é com bons olhos que vemos a continuação do raciocínio de Champlin sobre esse texto, pois ele afirma que o termo Elohim não é uma referência à Trindade, mas uma forma de frisar a majestade de Deus.

Ele ainda diz que esse texto não pode estar se referindo a Trindade porque essa doutrina só foi formulada no século II d.C. (Champlin, 1933, p. 9). Rebatemos esse raciocínio, dizendo que o termo Elohim, por vezes, é empregado para se referir às divindades pagãs, e que tal termo não é encontrado em literaturas extrabíblicas.

É razoável, portanto, pensar que o plural Elohim, quando empregado ao Deus Todo-poderoso não diz respeito a várias divindades, mas à pluralidade de pessoas nesta divindade. Por fim, dizemos que o fato da doutrina só ter sido formalizada por volta do século II d.C., não traz nenhum impedimento a que pensemos na Trindade em textos do Antigo Testamento, pois a descrição da doutrina só aconteceu no século II, mas a Trindade em si existe desde a eternidade. 

Pronomes plurais também são empregados por Deus para se referir a si mesmo. Há inúmeras passagens bíblicas em que Deus se refere a si mesmo no plural. 

Gn 20.13 – “E aconteceu que, fazendo-me Deus (hebr. Plural) sair errante da casa de meu pai [...]”

Gn 1.26 – “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança [...]”. A quem Deus estaria se referindo ao pronunciar: “Façamos”? Aos anjos? Evidente que não. Basta uma rápida da angelologia para constatarmos a diferença inconciliável que há entre os anjos e os homens. Deus usou o plural para se referir às demais pessoas da Trindade, a saber: o Filho e o Espírito Santo.

Gn 11.7 – “Eia, desçamos e confundamos [...]”

Gn 1.1,2 – “No princípio criou Deus os céus e a terra. E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas”. Vemos aqui uma distinção entre Deus e o Espírito de Deus, que pairava sobre a face das águas. O apóstolo João é quem vai dizer que o Filho também estava presente neste momento (Jo 1.1-3).

Is 6.3 – “E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória”. Vemos o triságio, isto é, o louvor à santíssima Trindade através da tríplice pronúncia da palavra santo. Tal pronúncia aponta para a pluralidade pessoal de Deus.  

Is 6.8 – “Depois disso, ouvi a voz do Senhor, que dizia: A quem enviarei, e quem há de ir por nós [...]”. Observamos que o Senhor queria enviar alguém para proclamar a sua Palavra. À luz do Novo Testamento, vemos que essa proclamação só é possível com a ação direta das três pessoas da Trindade. Por isso Mateus registrou as palavras de Jesus: “Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt 28.19).

Nm 6.24-26 – “O Senhor te abençoe e te guarde; o Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti; o Senhor sobre ti levante o seu rosto e te dê a paz”. Na bênção arônica, vemos três vezes a expressão “o Senhor”, parecendo sugerir as três pessoas da divindade.

Gn 19.24 – “Então, o Senhor fez chover enxofre e fogo, do Senhor desde os céus, sobre Sodoma e Gomorra”.

Outro texto do Antigo Testamento que aponta para a realidade trinitariana, ficou conhecido como o shemá judaico. Vejamos o que diz o texto de Dt 6.4: “Ouve Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor”. Esse versículo, seguido da ordem de amar a Deus e ensinar a Sua Palavra, é a doutrina central da teologia hebraica, ele aponta para a unidade de Deus.

A maioria dos judeus se utiliza desse texto para negar a doutrina da Trindade e fundamentar suas acusações contra os cristãos, dizendo eles que somos triteístas. Uma rápida análise, porém, à luz dos originais, esclarece a questão, e o argumento dos judeus se volta contra eles mesmos. Ouçamos as palavras de Ellisen (2007) em relação a este assunto:

A palavra hebraica “um” (‘echad), entretanto, significa uma unidade com possíveis divisões (composta), em vez de uma singularidade absoluta (como a palavra yachid expressaria). Em Gênesis 2.24, homem e mulher tornam-se “uma só carne” (‘echad). A palavra “um” (‘echad) insiste na unicidade ou unidade de Deus, mas admite uma revelação posterior das três Pessoas – Pai, Filho e Espírito Santo – como Deus Único.Essa profissão de fé (shemá) tem sido a marca autêntica da religião de Israel através da história, embora tenham deturpado a importância de “um” (‘echad). (p. 72, grifo nosso).

Então podemos concluir que o termo “único”, de Deuteronômio 6.4, aponta para uma unidade composta de Deus. A unidade absoluta é expressa no Antigo Testamento pela palavra hebraica yachid, que aparece, por exemplo, no texto de Gênesis 22.2, onde lemos: “E disse: Toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaque [...]” (grifo nosso). O shemá ou profissão de fé, portanto, é um indício da Trindade no Antigo Testamento.

 Extraído da obra: Doutrina da Trindade. GUSTAVO, Walber: Recife, Bereia Editora, 2014.

 


IEADPE - Outros artigos