Os acontecimentos dos últimos dias tem suscitado os mais ávidos sentimentos por parte principalmente dos cristãos. Uns são coléricos: cerram os punhos e verberam em alta voz condenando o pecado escancarado dos transviados. Outros, ficam na outra margem pregando a paz e o amor, custe o que custar.

Não me sinto à vontade nem para marcar ferrenha oposição, nem para passar a mão na cabeça dos pecadores daquela marcha LGBT. Mas, para minha surpresa, encontro pessoas pacíficas e amorosas que gritam aos quatro ventos contra tudo o que veem. E encontro também, outros de linha mais firme, cederem ao ver o movimento do outro lado — no meio do clamor daqueles, acham que devem pregar sobre a importância do amor, etc e tal.

Nestas horas, questões profundas são debatidas de forma calorosa e superficial. É fácil escolher um dos grupos para depois perceber que o objeto da controvérsia está ausente e que estamos agredindo um ao outro. São nessas situações que perdemos a simpatia por um irmão que admirávamos, por um amigo em que a vida inspirava, por causa de uma palavra, às vezes, perdemos uma reputação construída.

Talvez, se lêssemos mais a Bíblia e se ouvíssemos menos os intelectuais ou as personalidades de nossa era, os crentes teriam mais sucesso na disseminação da verdade.

Alguns de nós caíram no engodo de seguir perfis e perfis de doutores, geralmente desviados, mas com uma aparente defesa da verdade. Alguns de nós deixaram de freqüentar suas igrejas, deixaram de ouvir seus pastores e assentaram-se confortavelmente em suas poltronas para ouvirem a doutrina de pastores da TV desviados da verdade. Alguns, na verdade, fizeram de causas políticas suas bandeiras, esquecendo-se completamente do genuíno Evangelho. Outros estão embriagados com a sabedoria do mundo, o secularismo moderno, e nem percebem que “se o grão de trigo caindo na terra não morrer, fica ele só. Mas se morrer dá muito fruto”. Não percebem que a sabedoria humana torna a cruz de Cristo vã. Quando tentam não ofender os pecadores para supostamente os atrair, na verdade, eles transformam o Evangelho numa mensagem sem graça e insossa. Porque é pela loucura da pregação que os pecadores serão salvos (1 Co 1.17–23).

Paulo destacou dois grupos quando escrevia sobre a revelação de ser Cristo a sabedoria e o poder de Deus. Ele citou os judeus e os gregos. De um lado, a abusiva religião e do outro lado, a intelectualidade humana fria e cética. Numa situação como esta em que estamos vivendo, facilmente podemos nos identificar com um dos dois grupos. Claro, a comparação não é perfeita, mas explica alguma coisa. Ater-se a uma determinada causa pode nos fazer perder de vista o significado da cruz de Cristo. Preocupamo-nos tanto com nossas defesas que esquecemos que tanto judeus quanto gregos, tanto os religiosos quanto os intelectuais, podem ter em Cristo a convergência dos seus questionamentos, pois Ele satisfaz o religioso sendo para ele o poder de Deus, isto é, como aquele que age de forma transformadora e visível, como também, satisfaz o intelectual sendo para ele a sabedoria de Deus, ou seja, aquele que age no intelecto convertendo o mais frio cético em fiel servo dEle.

Infelizmente, quando torno a sabedoria das minhas palavras ou minhas tradições mais fortes do que a Palavra revelada, desprezo a cruz de Cristo que tem o poder de atrair pelo escândalo, pelo que é ofensivo. Vejam, não percebem que a cruz atrai pela ofensa? Ofende (sim, tem esse aspecto exagerado pelo defensor da heterossexualidade) e une (discurso preferido dos mais brandos). Mas onde estão os crentes? Onde estão os judeus e gregos unidos pela cruz de Cristo? A marcha passou, o mundo passa, os pecadores lá de foram continuam a praticar seus pecados contra Deus, mas o que resta das calorosas discussões são crentes ofendendo uns aos outros, tentando se fortalecer com seus discursos.

Infelizmente, muitos de nós são como tolos, não tem prazer no entendimento, mas querem apenas expor o seu pensamento (Pv 18.1). É uma mania de opinar, de dizer: eu acho isso, eu acho aquilo. Cristãos se assentam para falar sobre questões já resolvidas nas Escrituras, dizendo: “na minha opinião”. Por outro lado, há os seguidores de Tiago e João, desejando que caia fogo do céu sobre os pecadores impenitentes. No meio dessa confusão estão os meninos na fé e os incrédulos, assistindo sem entender o que queremos defender.

Mas, afinal, o que diz a autoridade máxima sobre isso? Silencia em nome do amor? Reage com ira? O problema é que sempre nos aproximamos da nossa fonte de fé e confissão, a Bíblia, munidos de alguma teoria ou verdade pessoal e então procuramos nela respaldo para nossas atitudes. O resultado? Usaremos a Bíblia ou para acentuar um aspecto da verdade ou para atenuar, se for conveniente para nós. Mas, nenhum texto da Bíblia pode ser isolado para justificar qualquer atitude — nem as exageradas nem as brandas. A Palavra de Deus só poderá ser compreendida à luz da sua totalidade.

O código moral e de ética de Deus foi revelado lá no decálogo. Se quisermos o bem para qualquer sociedade ou governo, olhemos para os princípios descritos lá. Não há nada fora de moda ou ultrapassado. Foi escrito para pecadores que precisam conter seus impulsos visando o bem-estar de todos. Todas as nações que fundamentaram suas leis nas leis de Deus prosperaram e formaram os melhores ambientes para o florescimento de uma cultura sadia e duradoura. Com Cristo, a lei de Deus atinge seu cumprimento máximo, capacitando cada crente a exceder a justiça estabelecida no decálogo.

O perigo reside aqui. Como ser um cidadão do mundo, sendo sobretudo um cidadão do céu? Acredito ser essa a principal questão por trás de todas as placas. Precisamos lidar com questões do mundo tendo em vista os tesouros do céu. Não podemos cair numa visão materialista do Reino de Deus, concebendo-o como algo meramente político e militar, pois ele é essencialmente espiritual. Também não podemos aplicar diretrizes no Reino de Cristo para não regenerados, pessoas naturais sem discernimento espiritual do Reino. Temos então dois tipos de pessoas: as que precisam ser contidas pela lei, as que estão debaixo da lei humana, e as que sobrepujam a lei, pois vivem na liberdade conquistada por Cristo.

Os que são de Cristo não deveriam estranhar o ódio do mundo contra eles mesmos. Com isso não quero dizer que devemos ser frouxos, acomodados e parecidos com o mundo para ganhá-los. Tentar impor a lei perfeita da liberdade, uma lei de tão alto padrão, para quem não experimentou a cruz de Cristo é apontar um caminho incompreensível e indesejado. Só podemos falar da lei do amor com quem nasceu do alto. Só podemos falar de vida com quem experimentou a morte para si mesmo.

O problema é que vivemos numa era anticristã, que não aceita os absolutos morais das Escrituras. Há, sim, constantes eternas que devem nos guiar pelo mundo, para o bem do próprio homem. O que para Deus era pecado no Sinai, continua sendo pecado hoje. Ele não mudou. Para os que estão debaixo da lei, para os que não experimentaram a cruz de Cristo, a lei que deve reger é a do “olho por olho e dente por dente”. É a lei que protege os mais fracos e que protege a propriedade privada. É a lei que pune os desordeiros e os que disseminam práticas odiosas contra a natureza e o seu bem-estar.

Nesse mundo regido pelo príncipe das trevas, como cristãos precisamos agir como Deus: ir em busca dos pecadores sem negar a Sua justiça, retidão e verdade. Confesso que esse equilíbrio não é fácil, mas é possível. Como disse Paul Tripp, a graça de Deus nunca chama o errado de certo. Se o errado fosse certo, não haveria necessidade de graça. O que a graça faz é tratar de uma forma particular o erro. Não há erro algum em irar-se diante da depravação. “Vós que amais o Senhor, detestai o mal…” (Sal 97.10). Quando expressamos a ira do próprio Deus, não pecamos, nem agimos com desamor, antes, reafirmamos sua natureza salvadora. Mas esse amor que aponta para o destino final, para a condenação eterna, não o faz usando as armas mundanas — não usa um linguajar sujo, nem escarnece do estado caótico do homem longe de Deus, expondo suas imagens sujas ou repetindo os impropérios que falam contra o Deus santo.

Se nascemos de novo, se experimentamos o que é sentir o peso do pecado e o quanto ele nos afasta do nosso Deus e Pai, se em meio ao desespero diante das nossas misérias enxergamos o grande amor de Deus através da cruz de Cristo, dando-nos liberdade dessa escravidão, então, veremos os homens do mundo como vítimas do pecado, escravos de Satanás. E então, compadeceremo-nos deles, da cegueira que os faz tropeçar ao meio dia e choraremos. Se os vejo crucificarem a Jesus e zombarem do Seu terno amor, devo, mais uma vez, à semelhança de Jesus e de Estevão, rogar: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”.Tem sido essa a nossa atitude diante do que fazem?

Tenhamos cuidado com as orientações de milhares de pensadores não-convertidos. Homens e mulheres que não sabem o que é “sentir as próprias misérias, lamentar e chorar”. Homens e mulheres que estão em busca apenas de mais seguidores e admiradores. Que querem seu dinheiro e sua submissa fidelidade aos seus pensamentos. Nossa ira deve ser contra o pecado e não contra aquelas pobres e oprimidas almas. Não compartilhe do pensamento dos que usam dos mesmos meios para arrasar com estes pecadores cegos. Usam afronta com afronta, calúnia com calúnia, palavrão com palavrão, briga com briga. Deus não nos chamou para isso.

Nossa guerra aqui, meus irmãos, não é contra as pessoas, mas contra o pecado. Precisamos ter muito cuidado para não misturarmos assuntos políticos com os de fé. Admiro muito Daniel e seus amigos. Eles souberam viver no meios dos babilônios com sabedoria e fé, sem no entanto, provocarem tumultos ou guerras religiosas. As pessoas do mundo precisam nos ver como Igreja de Deus, coluna e firmeza da verdade, embaixadores do céu e não como anti-gays ou anticomunistas ou o que quer que seja. Lutamos contra o pecado, mas clamamos pelas vidas.

Não convém que sejamos ofensivos com o próximo, nem insensatos, nem tolos e nem ao menos convém que fiquemos exibindo nossa fé cristã para provocar os outros. Basta-nos ser como Jesus para que as perseguições se tornem inevitáveis.

O Evangelho de Jesus não está interessado num debate hipócrita. O conceito de retidão e santidade deve ser visto na vida daquele que leva essa preciosa mensagem. É por isso que me dói ver que os que se levantam contra as imoralidades do nosso país sejam homens de condutas duvidosas.

Eu acredito num cristianismo que pode mudar a cultura de um povo. Acredito num cristianismo que penetra em todas as áreas da vida dos seus seguidores — na vida pública e privada, e muda as atitudes, palavras e pensamentos. Mas o poder do Reino de Deus não vem com imposição nem com força aparente. Ele age como um fermento dentro de uma massa, como uma pequena semente que morre, explode dentro de um subsolo propício e gradualmente cresce formando uma bela árvore cujos galhos enormes produzem sobra tanto para um beija-flor, como para um urubu.

O cristianismo que aceitei age na cultura trazendo à razão pessoas comuns, dando-lhes senso de responsabilidade e dignidade, fazendo-os voltar os olhos para si mesmos e para a cura dos seus próprios males. Limpa primeiro o copo interiormente para só então limpá-lo exteriormente. E então, professores, médicos, mães, empresários, comerciantes, artistas, comunicadores levam para onde estão o poder de uma vida transformada.

A mensagem desse evangelho não consegue nem pode ficar debaixo de uma mesa, escondida dentro das portas da nossa casa. Ela irradia sua maravilhosa luz por onde passamos, atraindo muitos que estão nas trevas. E como em todo o ajuntamento de pessoas, haverá pessoas habilidosas com as causas do povo que se levantarão para discutir assuntos do interesse das coisas daqui. Eles sabiamente conduzirão suas vidas pautados na verdade do Evangelho legislando, julgando ou administrando as coisas do povo com justiça e retidão.

Isso tudo é possível desde que estejamos comprometidos primeiramente com o Reino de Deus e com a sua justiça, vigiando em todo o tempo para que as seduções do mundo não nos atraiam a ponto de perdermos de vista o eterno por causa do temporal. Todas as áreas humanas de atividade, desde que honestas, podem e devem ser ocupadas por crentes sérios. Mas, não devíamos privilegiar umas e outras. Devíamos antes, como igreja de Deus, pregar o genuíno Evangelho que transforma ladrões, prostitutas, adúlteros, homossexuais, religiosos idólatras ou quaisquer outras classes de pecadores. Lembrando sempre que o Reino de Deus não é daqui e que somente quando Ele nos buscar é que teremos satisfeitas nossas ânsias pela verdade, pureza e justiça.

Que nesse desejo pela verdade e justiça não tornemos a fé cristã apenas parte de opiniões políticas e sociais para aqueles não crentes que precisam de salvação. E que, no desejo de sermos misericordiosos, deixemos de combater o pecado com as armas espirituais da nossa milícia.

Verdade, justiça e evangelho da paz por onde quer que passemos. Fé inabalável e salvação em Jesus para nos proteger. Palavra de Deus como arma de guerra e oração incessante para permanecermos humildes. Nem mais, nem menos. Palavrão, xingamentos, menosprezo, tentativa de paz pelo conhecimento humano — nada disso resolverá. Usemos tudo o que Deus nos deu pelo seu divino poder, para a vida e piedade. É somente pelo conhecimento dEle que ficaremos participantes de Sua natureza, escapando da corrupção que pela concupiscência há no mundo.

Adna S. Barbosa - IEADPE